O ensino superior brasileiro vive hoje uma inversão preocupante de
lógica. Enquanto cursos tradicionais enfrentam inadimplência e evasão, a
graduação em Medicina se consolida como o ativo mais valioso do setor
educacional, com mensalidades que chegam a R$ 15 mil, evasão quase
inexistente e alta previsibilidade de receita.
Nesse cenário, a formação médica passa a ser tratada menos como
política pública de saúde e mais como um produto premium, altamente
rentável e protegido por fortes barreiras regulatórias.
Esse contexto alimentou uma corrida bilionária entre grandes grupos
educacionais, como Afya, Yduqs e Ânima, que disputam vagas, aquisições e
autorizações regulatórias em um mercado cada vez mais concentrado.
A abertura de cursos exige hospitais-escola, infraestrutura complexa,
docentes altamente especializados e aval conjunto dos Ministérios da
Educação e da Saúde – fatores que elevam o custo de entrada e transformam
cada vaga em um ativo milionário.
O risco é que a expansão seja guiada prioritariamente por estratégias
financeiras, e não por critérios de qualidade assistencial ou necessidades reais
do sistema de saúde. As estratégias adotadas reforçam essa preocupação. Há
grupos focados em aquisições agressivas, outros em verticalização de
ecossistemas educacionais e aqueles que apostam fortemente no lobby
regulatório para ampliar vagas.
Em comum, está a lógica de escala e rentabilidade, sustentada por
investidores e fundos de private equity, em um ambiente onde o número de
médicos cresce rapidamente, mas sem garantia proporcional de qualidade na
formação, na prática clínica e na distribuição desses profissionais pelo
território nacional.
Diante desse cenário, a ABRESST entende que o debate precisa ir além
dos números bilionários e da expansão de vagas. A pergunta central que se
impõe é: essa crescente “fábrica” de médicos está, de fato, preparando
profissionais qualificados para atender a população e os trabalhadores com
segurança, ética e excelência técnica? Ou estamos diante de um modelo que
prioriza volume, retorno financeiro e mercado, em detrimento da qualidade
da assistência e da saúde de quem sustenta o País com seu trabalho? Vale a
reflexão.